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O Autor dos Rituais

Nos anos trinta, Frank Land foi questionado numa entrevista de rádio, como DeMolay diferia de outras organizações para a juventude. Ele imediatamente respondeu: “Ela tem um ritual”. Sua resposta dada prontamente e de maneira calma, ainda é a qualidade inerente da Ordem DeMolay. Ela tem pompa e beleza. Dá oportunidade de participação na mostra dramática de personalidades heróicas. Os graus apresentam um desafio para que cada garoto cresça e se torne o melhor homem e um melhor cidadão. O ensino de virtudes que se provaram verdadeiras em todas as gerações, tornou-se vital para cada jovem enquanto ele solenemente se compromete a ser fiel e esses ideais pelas palavras que são um pacto: “Eu assim prometo e juro”.

Do encontro para a organização em março de 1919, até meio do verão, o novo clube DeMolay cresceu, com um campo nato time de baseball liderado por Louis Lower como arremessador e Ray Hedrech como apanhador. Havia atividades sociais, projetos de serviço, mas Land não estava satisfeito. Seu clube, precisava de algo mais. Ele falou com seus amigos durante o dia e à noite com sua esposa discutindo cada idéia, cada plano possível que pudesse manter a organização unida e dar à mesma algo único que promovesse seu crescimento. O plano que desejava parecia fugir-lhe. Frequentemente parecia tão perto, mas as vezes o sonho se evaporava no domínio das idéias vagas. Então uma noite, no templo do Rito Escocês ele viu seu amigo Frank Marshall e soube que havia encontrado uma resposta.

Marshall era tão bem conhecimento em Kansas City como critico de arte dramática e de música do Kansas City Journal”. No início de carreira havia trabalhado com Willian Allen White, edito nacionalmente conhecido do Emporia, Kansas, e agora tinha atrás de si uma brilhante carreira como repórter, editor e poeta. Um de sues sonetos havia sido colocado no museu de Shakespeare em Stratford on Avon, e ele havia sido convidado pelas autoridades de Kansas City a escrever um poema para ser colocado na caixa de recordações comemorativa de recém reconstruído centro de convenções. Este poema, refletindo o desafio de um século para o outro, deveria ser lido quando a caixa fosse aberta um século depois.

Terminava com as linhas:

“Mas em nossa xícara não esvaziamos o fel do arrependimento se formos transformados em pacientes degraus para melhorar as coisas para os que virão”

Land encontrou Marshall afundado em uma velha cadeira estofada, a própria figura de um homem à vontade. O velho jornalista estava vestido de sua maneia habitualmente relaxada. Seu terno amarrotado, e escondido nas dobras de um amplo colete, Havia uma pesada corrente de ouro, sustentando o peso de um medalhão da fraternidade. Sob o lábio superior um bigode grisalho e no queixo um cavanhaque. Do bolso esquerdo do seu casaco, projetava-se a última cópia do Journal, quase a ponto de cair no chão. Dois homens não poderiam ser mais diferentes em aparência do que estes dois Franks. Um, imaculado, o outro, casual e completamente indiferente à vestimenta e aparência. Porém, cada um irradiava tremenda capacidade, força de caráter e devoção ao idealismo. Agora, no momento deste encontro, nenhum deles percebeu que antes que se passasse 24 horas, o esboço dos dois graus DeMolay seriam escritos, para permanecer sem alterações por cinco décadas ou mais.

Land encaminhou-se para ele naquela noite e Marshall meio que ergueu-se em cumprimento; e então, voltando à sua cadeira disse: “sente-se e conte-me sobre este clube para meninos que está formando. Está tudo correndo bem? O que há de novo?”

“Bem , a resposta a primeira pergunta é que estamos crescendo. A resposta a “o que há de novo” não é a que poderia esperar. Tenho um título novo, os garotos me chamam de “Pai”. Eles não sabiam como chamar-me. Parece que relutavam em chamar-me Frank por causa da nossa diferença de idade, e achavam Mr. Land muito formal. Louis Lower começou a me chamar de “pai” e os outros fizeram o mesmo. Todos estamos satisfeitos. Eu gosto. Os garotos gostam. “Pai está perfeito. Implica em respeito e dignidade e estou orgulhoso por ser chamado assim”.

“Muito bem. Vejamos, você tem 28. Eu tenho 54. Há uma diferença aqui mas vou me unir ao lado jovem – o que mais, Pai, há de novo?”

E é aqui que você entra. Tenho pensado a respeito de algo para dar ao nosso clube uma qualidade distinta e acho que encontrei. Frank, quero que você escreva um Ritual para DeMolay”.

“Agora espere um minuto,“Pai”. Espere um pouco. Por que eu?”

Porque você é o homem mais qualificado que conheço. Tem sido ativo em sua fraternidade na Universidade de Kansas desde os dias da faculdade. É dedicado à maçonaria, em todos os ramos, e tem participado em todos os graus. Está escrevendo um livro de poemas que inspiram, e leio todas as semanas seu editorial “Pequenos Sermos Leigos” no Kansas City Journal, aos sábados, com muito gosto. Frank, você é o homem para fazer isto”.

Frank Marshall pensou por um tempo. Brincou com as pontas de seu bigode e com a corrente de seu relógio, olhando as horas distraidamente e, finalmente disse: “não – definitivamente não. Não acho que sou capaz. Não posso fazê-lo. Mas ouvirei sua idéia se quiser contar-me como deveria ser este ritual – você sabe, não precedentes. O ritual maçônico não tomou forma até que a Grande Loja da Inglaterra fosse criada. Alguns dizem que tomou todo o tempo da História para evoluir, e você quer que eu escreva um ritual no que presumo ser um curto espaço de tempo. Não posso fazê-lo, mas estou interessado em sua idéia”.

“Tudo está ainda em formação e não muito claro. Parece-me que deve ter duas partes, ou seções, ou graus. Você sabe que os Romanos tinham uma cerimônia quando um jovem vestia pela primeira vez a toga que o tornava conhecido como um homem. Nos dias do Rei Arthur um escudeiro tinha que passar uma noite de reflexão e dedicação antes de receber o toque de uma espada em seus ombros, ao entrar para a cavalaria. Talvez uma parte pudesse ser assim. Dramatizar os anos de crescimento como jovem, para conquistar um sonho – uma espécie de coroa – uma coroa da juventude. Nos dias de hoje estamos perdendo os valores antigos e eles devem ser resgatados”.

“Que valores e quais virtudes você sugere?” Agora havia um notável interesse enquanto Frank Mashall tomava notas mentalmente e sentia a visão do que poderia vir a ser, no entusiasmo do homem mais jovem.

“Acho que antes de tudo, o amor filial deve ser incluído; depois deve haver algum tipo de ênfase que cativasse rapazes de todas as idades, Gostaria que essa geração mantivesse uma cuidadosa consideração por outras – digamos…cortesia”.

Agora Marshall estava definitivamente interessado. “Com o fim da guerra, devemos encorajar patriotismo e lembrarmos os companheiros de serviços; chame-a companheirismo, se quiser”.

“É isto que estou pensando, e há outras virtudes também, como a fidelidade de Jacques DeMolay, pureza de pensamento e de vida. Poderíamos também enfatizar a mudança de padrão de vida, do entusiasmo juvenil com o futuro pleno de sonhos, até os anos de maturidade chegarem. O que acha disto, Frank? A idéia o atrai?”

“Começo a ver algo belo e medida que você fala. Você disse uma coroa da juventude?”

“Sim, isto podia ser a base, o começo”.

“Mas você mencionou antes dois graus. E com relação ao outro?”

Land hesitou, enquanto a visão do que queria se tornava cada vez mais clara para ele. “Quero que cada menino se ajoelhe perante ao altar e faça um voto pessoal que seja seu somente. A segunda parte poderia ser diferente. Talvez um teatro para dramatizar a morte de Jacques DeMolay. Eles ficaram fascinados quando lhes contei de sua devoção à causa e sua lealdade aos irmãos. Sim, podia ser isto. Pense no drama, na decoração do palco, a pompa, na oportunidade dos garotos representarem. Eu simplesmente não vou aceitar “não” como resposta. Pense sobre isso e me telefone amanhã”.

Aquela noite Frank Marshall não pode dormir. Em sua imaginação, via uma sala cheia de jovens e uma cerimônia de iniciação. Fracamente podia perceber as gárgulas de Notre Dame e a fumaça que subia da morte de um  mártir na fogueira perante a catedral. Ele se esqueceu de dormir e foi para a mesa de trabalho. Chamou a si toda sua habilidade e impulsionado pela imagem de Frank dizendo “Você é o escolhido para escrever este ritual para a Ordem DeMolay”, escreveu durante toda a noite e por quase toda a manhã. Pouco antes do meio dia, pegou o telefone. “Venha pra cá, Frank. Acho que tenho o que quer. É um rascunho. Precisa de refinamento nas palavras e frases, mas acredito que está tudo aqui”.

E estava. Poderia ser chamado de genialidade, visão ou aceitar um desafio, mas o que escreveu serviu de inspiração para milhões de jovens. Semanas foram gastas poluindo e revisando, um dos membros do clube de DeMolay, Ted Little, foi visitá-lo em casa uma tarde e o encontrou balançando na rede com um leque na mão e um cachimbo do qual subiam baforadas de fumaça. Marshall nem tentou se levantar, continuando a se balançar suavemente deliciando-se com o movimento e com a sombra dos velhos e altos carvalhos que sustentavam seu “sofá balançante”. Seu cumprimento foi cordial e explicou: “Este é o meu conduto para o céu – uma espécie de sinais de fumaça. Preciso do toque do infinito enquanto escrevo, ajuda-me”.

A medida que o manuscrito ia tomando sua forma final, Frank Land observava cada parte do trabalho e um dia: “Há algo faltando. A noite passada, observei minha mãe enquanto ela punha minha irmãzinha para dormir. Há alguma coisa que mexe com meu coração quando observo a maternidade no que ela tem de melhor. Quero uma oração incluída, de que Deus estará olhando por ela. Vamos acrescentar um serviço religioso que possa ser feito a hora de dormir – digamos nove horas – a cada vez que os meninos se reunirem. Talvez pudesse começar assim: “Irmãos, a esta hora em toda a terra que amamos, as mães se curvem sobre o berço dos filhos que amam. Façamos uma pausa em nossas deliberações para oferecermos uma prece por nossas mães”. Acho que os meninos devem se afolhar e mesmo durante uma dança ou festa, devem incluir este serviço – como um tipo de interpolação.

Dia a dia o manuscrito foi revisto, polido e refinado, até que refletiu o significado de uma profunda experiência religiosa, tanto em palavras quanto em ação. A própria dimensão espiritual de Frank, profunda, e sua sinceridade, irradiava-se através dos escritos e Marshall até que ambos ficaram satisfeitos de que este ritual impressionaria e inspiraria os jovens para viverem através dos anos, sob uma dedicada devoção a Deus, ao País e ao Lar. Serviços adicionais para abrir e fechar capítulo foram escritos. A cerimônia de interpolação ganhou proeminência.

Assim, no início da Ordem DeMolay, foi aceito um ritual para iniciar seu caminho do mundo. Mas não havia sequer um garoto que tivesse sido iniciado ou prestado juramento como membro. Como poderiam estes que não tinham sido iniciados sob este ritual, conferir os graus da cerimônia aos outros? Por onde começar quando não há reservatório de experiência a se consultar? Aqui, o dom de organização e amor ao que é apropriado que possuía Frank Land, tornou-se vital.

O tempo de preparar esses jovens para o recebimento das promessas do ritual havia chegado, para então conduzirem as cerimônias de iniciação para os outros, com dignidade e beleza.

Durante este tempo os garotos perceberam que alguma coisa de incomum estava acontecendo, mas nenhum deles havia visto ou lido as cerimônias. Alguns nem sequer haviam ouvido falar delas, até que uma reunião extraordinária fosse convocada no final do verão, onde “Pai” Land solicitou a oportunidade de falar. “Por muitos meses” ele começou “tivemos um bom grupo de jovens se reunindo no Templo do Rito Escocês nesta cidade. Gostamos do prédio e gostamos um dos outro. Tem sido uma boa sociedade. Agora, proponho que avancemos além disso, acrescentando algumas cerimônias que dêem significado ao nosso grupo. Frank Marshall escreveu um ritual para nosso uso, que tem um profundo significado. Não quero forçar isto a vocês – mas lembre-se, se o aceitarem, nós o aceitaremos e não há como voltar a trás. Vocês serão solicitados a firmar compromisso pelo qual deverão viver daqui por diante. Alguns de vocês que se anteciparam ao programa, pediam permissão para ler as cerimônias de iniciação e de juramento. Não quis atender a este pedido. Queria que cada um experimentasse algo do segredo que será sempre parte do DeMolay. Asseguro que não há nada escrito que possa causar-lhes constrangimento ou expô-los ao ridículo. Não há burro para se cavalgar nele nada existe de laviano. As cerimônias são solenes para imprimir em suas mentes as verdades do viver correto, agora e nos anos do futuro”.

Os garotos ouviam enquanto esse novo aspecto do clube lhes era explicado. Havia um sentido de mistério e segredo naquilo, trazia emoções mescladas de entusiasmo por uma aventura desconhecida e apreensão sobre o que ia acontecer. Um deles expressou seus sentimentos dizendo “Estou inquieto”.

Land sugerira, ao deixar sala onde haviam se encontrado, que ficasse onde estavam e depois entrassem no auditório à medida que seus nomes fossem chamados. Lá eles receberiam o juramento de um DeMolay. O primeiro nome chamado foi o de Louis Lower, ao redor de qual o grupo havia se formado, e o segundo de Gorman Mc Bride, o primeiro oficial presidente eleito.

Então, em grupo de quatro eles pronunciavam os votos que seriam assumidos através dos anos por três milhões de jovens.

Toda a incerteza se desfez enquanto cada jovem era chamado a entrar no cargo auditório, para fazer seus votos. A própria decoração trazia sugestão de se estar colocado diante do portal de um programa de profunda  vital importância.

Ele viu, na semi-obscuridade da sala, um altar coberto por uma simples toalha branca, sem insígnia onde, a um canto, haviam sido colocados vários livros escolares. Cravos brancos e vermelhos davam realce a uma velha Bíblia dada ao “Pai” Land anos antes, por freqüência perfeita à escola Bíblica Dominical. Ao redor deste centro de suas atenções, estavam sete candelabros acesos, altos, e atrás de cada um deles um homem estava de pé, usando um solidéu de um maçom do grau 33. Solicitaram de cada garoto que se ajoelhasse e colocasse suas mãos na Bíblia à sua frente, e repetisse as palavras do voto enquanto eram ditas por “Pai” Land. Em algum lugar do aposento, um órgão tocava, e à medida que cada um completava seu juramento, um coral cantava suavemente os versos de um hino de devoção. Seguindo-se a isso, pedia-se que o garoto se levantasse e se este tivesse sido eleito como oficial para um cargo, era conduzido a um local na sala, – seu posto – onde participaria dos ritos e cerimônias do novo ritual.

Os que serviram como primeiros oficiais foram:

Averill C. Tatlock – Mestre Conselheiro
Harry A. Carpenter – 1º Conselheiro
Louis G. Lower – 2º Conselheiro
Willian L. Lewis – Escrivão
Harry C. Clark – Tesoureiro
Delas H. Elmore – 1º Diácono
Richard M. Stater – 2º Diácono
Jack T. Harris – 1º Mordomo
Robert E. Balhler – 2º Mordomo
Richard M. Wakefield – Capelão
Hemeth Miller – Sentinela
Ernest E. Hall – 1º Preceptor
Ralph Vance – 2º Preceptor
Calvin P. Boxley – 3º Preceptor
Burrett N. Ackenhouse – 4º Preceptor
Ernest P. C. Moss – 5º Preceptor
M. Harney Walter – 6º Preceptor
Merill K. Dubach – 7º Preceptor

A instalação seria feita mais tarde, em 16 de setembro de 1919, mas nesta noite eles silenciosamente assumiriam os lugares designados para cada um, enquanto os outros sentavam-se em cadeiras sob o balcão do grande salão gótico. A semi-obscuridade cedeu lugar a uma luz crescente, e a primeira sala capitular bem como os primeiros oficiais de um capítulo DeMolay entraram em foco e vieram a existir.

Frank Marshall acenou com a cabeça para Frank Land e seus lábios silenciosamente formaram as palavras “É bom – servirá”.

 

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